Quem sou eu

Minha foto
Porto Velho, Rondônia, Brazil
Tenho a fé inabalável dos que creem no altíssimo. Sou forte quando os que amo precisam de mim. Sou frágil quando sou magoada. Não acredito em ‘mentiras sinceras’. Amo e procuro exalar amor. Sou ilimitadamente fiel aos que amo. Tenho a piedade caridosa dos que tentam me odiar. Nem sou toda Luz, mas a trevas não se apoderam de mim. O meu coração não é aquele barco com a vela panda. A minha vida não é um barco à deriva. Sou um ser racional, mas me entrego à idéia de ter um “porto seguro”, para que eu não necessite mais naufragar em ilusões. Vivo as emoções e as desejo eternizadas. Deus, família e amigos são as prioridades da minha vida.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Revolução


"É chegado o tempo em que não se conversa, mas: bate-papo... Que não se diz "Eu te amo", mas simplesmente " na tua". Nada mais é sentido: é sacado! E não se vive: se curte uma... É chegado o tempo em que não se tem mais saudade: se atravessa uma pior, mas numa boa. As coisas já não acontecem: pintam! É chegado o tempo em que não se estende mais a mão para se cumprimentar não que seja formalismo, mas porque é uma babaquise! Move-se a cabeça e quando muito, se diz "oi bicho!''. Tudo é um barato, mesmo quando ridículo, catastrófico... Ninguém mais se entende: saca o lance! Todo gente é gente fina! E já não se declara mais amor, passa um aluguel.
É chegado o tempo em que beleza não é mais beleza. É aumentativo de "T". O homem é naturalmente taxado de gostoso.
Tudo é original, descontraído... mesmo com todo artificialismo presente: Mas e os problemas mundiais? A fome? Jão não se come: se broca! Amor? Já nã se ama: se transa.
Ninguém mais concorda: vai nessa.
O indivíduo não é mais indivíduo, é cara.
Qualquer necessidade é fissura, tara.
Pai já não é pai: é coroa, velho.
Dinheiro já não é dinheiro: é grana, bufunfa...
Já não se explica: detalha-se o lance...
Já não se pede licença: diz-se simplesmente "sai da frente".
Errar? É sacanagem grave! Palavra chave.
Coca-cola! Remédio para qualquer problema.
Problema: já não é mais problema: é grilo.
E...são simplesmente as revoluções das gerações."
Mal

O mal circula por entre os bens
que nós criamos e jamais sua
presença foi tão sensível
como em nosso tempo...
É o mal do menos-ter
do menos-ser
do menos-viver
Ele surge como um
pecado da civilização
[Tristão de Athayde]


"O primeiro efeito do amor é inspirar um grande respeito.
Tem-se veneração pelo que se ama."

"A primeira função do poeta
É a de desancorar em nós
uma matéria que quer sonhar"
[Bachelard]


"O que faz de um lobo um lobo é que a fome o governa
o homem digno de tal nome,
governa a sua fome.
Mas ele também pode
tornar-se um lobo!!!"
[Tristão de Athayde]


"O sono é o alívio das misérias daqueles que as têm acordadas"
[Sir Walter Scortt]

logo que você nasce
te fazem sentir tão pequeno...

até a dor ficar grande que
você
não sente mais nada.


Working Class Heron/1970

J. Lennon

porque eu te olhava e você era o meu cinema, a minha Scarlet O´Hara, a minha Excalibur, a minha Salambô, a minha Nastassia Filípovna, a minha Brigitte Bardot, o meu Tedzio, a minha Anne, a minha Lou Salomé, a minha Lorraine, a minha Ceci, a minha Odete Grecy, a minha Capitu, a minha Cabocla, a minha Pagu, a minha Barbarella, a minha Honey Moon, o meu amuleto de Ogum, a minha Honey Baby, a minha Rosemary, a minha Merlin Monroe, o meu Rodolfo Valentino, a minha Emanuelle, o meu Bambi, a minha Lília Brick, a minha Poliana, a minha Gilda, a minha Julieta, e eu dizia a você do meu amor e você ria, suspirava e ria.

- do Arnaldo Antunes, do Psia

Perecível


"Nós, os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me."

[Pablo Neruda]

Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água.

(Arnaldo Antunes in Tudos)

Psia


Psia é femino
de psiu;
que serve para chamr a atenção
de alguém, ou para pedir
silêncio.
Eu berro as palavras
no microfone
da mesma maneira com que
as desenho, com cuidado,
na página.
Para transformá-las em coisas,
em vez de substituirem
as coisas
Calos na língua; de calar.
Alguma coisa entre a piscina e a pia.
Um hiato a menos.

(Arnaldo Antunes)

Soneto de Montevidéu


Não te rias de mim, que as minhas lágrimas

São água para as flores que plantaste
No meu ser infeliz, e isso lhe baste
Para querer-te sempre mais e mais.

Não te esqueças de mim, que desvendaste
A calma ao meu olhar ermo de paz
Nem te ausentes de mim quando se gaste
Em ti esse carinho em que te esvais.

Não me ocultes jamais teu rosto; dize-me
Sempre esse manso adeus de quem aguarda
Um novo manso adeus que nunca tarda

Ao amante dulcíssimo que fiz-me
À tua pura imagem, ó anjo da guarda
Que não dás tempo a que a distância cisme.

Vinícius de Moraes

A morte

Primeiro veio o homem, depois sua morte.
Ou vieram juntos?
A morte de um homem tem a cara da sua cara.
A cara dá bandeira do que o cara é.
Quando um velho não morre de dia ele vê a noite.
Depois a noite passa.
Quando uma coisa é demais dizem que é de morte.
Depois passa.
O tédio é ausência da morte.
Ou de sorte.
Quem morre é porque nasceu.
Ou vieram juntos?
[...]

(Arnaldo Antunes)




Bosques escuros e lanternas claras


Os bosques são belos, sombrios, fundos,
mas ha promessas a guardar
e muitas milhar a andar
antes de se poder dormir
sim,
antes de se poder dormir.

(Robert Frost)

Segredo


Segredo não se diz.
Mentira não se diz.

O que não se sabe não se diz.

O que não se pode dizer não se diz.
Palavrão não se diz.

Coisa com coisa não se diz.

Armazém não se diz.



Armazém!
Armazém!!


(Arnaldo Antu
nes)