Foi
isso que nos ensinaram: que não poderíamos confiar umas nas outras.
Cochicharam em nossos ouvidos que mulher é tudo falsa. Nos disseram que
as outras eram interesseiras, traiçoeiras, que roubariam nossos
namorados, que tentariam chamar mais a atenção, que eram vagabundas,
sempre uma ameaça.
Ensinaram a lição e
mostramos que aprendemos quando dizemos que “mulher trabalhando junta
não presta”, ou quando nos orgulhamos ao dizer “não tenho amigas
mulheres”, ou quando odiamos aquela garota sem motivo algum, ou todas as
vezes que julgamos a sexualidade da colega ou ainda quando atacamos,
humilhamos ou desprezamos a outra apenas para buscar as migalhas da
aprovação masculina.
Como pudemos acreditar nessas mentiras por tanto tempo?
É
tentador acreditar que “somos diferentes das outras” para tentar colher
as recompensas por ser uma “boa garota”. Eu sei. O problema é que essas
recompensas nunca virão. Se hoje odiamos as outras mulheres e não
hesitamos em julga-las, atacá-las ou exclui-las, nada impede que amanhã
os dedos que apontam para elas se voltem para nós mesmas. Hoje, a
vagabunda é a “outra”; amanhã pode ser eu ou você. Nenhuma de nós está
imune – e por isso mesmo, por mais diferentes que sejamos, há muito mais
em comum entre nós do que você possa imaginar.
Colocaram
entre nós essa espessa cortina de rivalidade para que não sejamos
capazes de nos enxergar de verdade. Para nos isolar. Para que,
divididas, nos enfraqueçam. Consegue imaginar a quem isso possa
interessar? Se eu e você sempre nos considerarmos inimigas, vamos poder
esquecer de combater as estruturas da sociedade feitas para nos manter
nos nossos devidos lugares. Se eu e você nunca nos considerarmos
aliadas, seremos mais facilmente vencidas. Parece até teoria da
conspiração, mas basta olhar ao seu redor. Basta olhar para a sua
própria vida.
Então está na hora de tentar ver
além dessa cortina e, ao invés de olhar para o que nos difere, tentar
encontrar aquilo que nos aproxima. Talvez você se surpreenda ao
encontrar do outro lado não esse estereótipo odioso que nos venderam,
mas uma mulher igual a você. Um ser humano tão único, multifacetado, com
falhas e atributos positivos, assim como você mesma.
Mas
tome cuidado: transpor essa cortina, apesar de simples, é algo tão
poderoso que vai deixar muita gente nervosa. Terão ataques de raiva, vão
querer te ridicularizar, te calar, fazer você voltar para o seu estado
anterior. Para muita gente, nada que mude pode ser algo bom. Mas você
pode imaginar o motivo, né? Normal que essa gente fique tão insegura.
Afinal, quando descobrimos que não precisamos lutar umas com as outras,
podemos fazer coisas incríveis.
Imagine quanta
coisa pode ser diferente se, ao invés de cerrarmos os punhos,
estendermos a mão para aquela outra mulher. Imagine poder olhar para
nossas irmãs negras, brancas, indígenas, jovens, velhas, cissexuais,
transsexuais, heteros, bi, lésbicas, magras, gordas, com ou sem
deficiência, baixas, altas e ver que mesmo com tantas diferenças há algo
profundo que nos conecta.
Com essa simples
mudança de atitude e de pensamento vamos rasgar em mil pedacinhos e
ainda sapatear em cima de uma das mais perversas mentiras que contam
sobre nós. E, de quebra, ainda podemos conhecer novas amigas. Mulheres
com quem vamos poder nos divertir, compartilhar momentos e contar com
elas para o que der e vier.
Que possamos mandar
um recado para as outras mulheres e não seja de ódio, desprezo ou
julgamento; mas um “estamos juntas”. Porque juntas somos mais fortes
para combater as armadilhas machistas do nosso mundo. Porque só juntas
sobreviveremos.


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