Quem sou eu

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Porto Velho, Rondônia, Brazil
Tenho a fé inabalável dos que creem no altíssimo. Sou forte quando os que amo precisam de mim. Sou frágil quando sou magoada. Não acredito em ‘mentiras sinceras’. Amo e procuro exalar amor. Sou ilimitadamente fiel aos que amo. Tenho a piedade caridosa dos que tentam me odiar. Nem sou toda Luz, mas a trevas não se apoderam de mim. O meu coração não é aquele barco com a vela panda. A minha vida não é um barco à deriva. Sou um ser racional, mas me entrego à idéia de ter um “porto seguro”, para que eu não necessite mais naufragar em ilusões. Vivo as emoções e as desejo eternizadas. Deus, família e amigos são as prioridades da minha vida.

domingo, 22 de março de 2009

Come, meu filho

- O mundo parece chato mas eu sei que não é.

- ...

- Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo. Eu sei que é redondo, mas para mim é chato, mas Ronaldo só sabe que o mundo é redondo, para ele não parece chato.

- . . .

- Porque eu estive em muitos países e vi que nos Estados Unidos o céu também é em cima, por isso o mundo parecia todo reto para mim. Mas Ronaldo nunca saiu do Brasil e pode pensar que só aqui é que o céu é lá em cima, que nos outros lugares não é chato, que só é chato no Brasil, que nos outros lugares que ele não viu vai arredondando. Quando dizem para ele, é só acreditar, pra ele nada precisa parecer. Você prefere prato fundo ou prato chato, mamãe?

- Chat... raso, quer dizer.

- Eu também. No fundo, parece que cabe mais, mas é só para o fundo, no chato cabe para os lados e a gente vê logo tudo o que tem. Pepino não parece inreal?

- Irreal.

- Por que você acha?

- Se diz assim.

- Não, por que é que você também achou que pepino parece irreal? Eu também. A gente olha e vê um pouco do outro lado, é cheio de desenho bem igual, é frio na boca, faz barulho de um pouco de vidro quando se mastiga. Você não acha que pepino parece inventado?

- Parece.

- Aonde foi inventado feijão com arroz?

- Aqui.

- Ou no árabe, igual que Pedrinho disse de outra coisa?

- Aqui.

- Na Sorveteria Gatão o sorvete é bom porque tem gosto igual da cor. Para você carne tem gosto de carne?

- Às vezes.

- Duvido! Só quero ver: da carne pendurada no açougue?!

- Não.

- E nem da carne que a gente fala. Não tem gosto de quando você diz que carne tem vitamina.

- Não fala tanto, come.

- Mas você está olhando desse jeito para mim, mas não é para eu comer, é porque você está gostando muito de mim, adivinhei ou errei?

- Adivinhou. Come, Paulinho.

- Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece.

 

LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Círculo do Livro, 1998. p. 122-4 

 

 

  1. O texto é um diálogo entre dois interlocutores que gradualmente vão sendo desvendados. Caracterize cada um desses interlocutores e o discurso que produzem.
  2. Por ser um diálogo, o texto procura transferir para a escrita algumas peculiaridades da língua falada. Aponte passagens em que isso ocorre de forma mais acentuada.
  3. Há passagens em que notamos que a transposição da fala para escrita produziu modificações mais acentuadas em palavras e estruturas. Aponte algumas delas e comente-as.
  4. O discurso da criança, em muitos momentos, parece colidir com o discurso adulto. De acordo com o que o texto nos, apresenta qual a lógica em que Paulinho se baseia para afirmar que, para ele, o mundo é chato? Que você acha dessa lógica?
  5. O texto também evidencia que a visão infantil é capaz de perceber relações que os adultos normalmente não concebem. Pensando nisso, comente o que o texto nos fala sobre o pepino e sobre o sabor de alguns alimentos.
  6. De que foram o final do texto inverte os papéis habituais exercidos por mãe e filho? Comente.
  7. Comente o uso de aonde no texto.
  8. Há muitos por que e porque no texto.

a)       Faça um levantamento das ocorrências e justifique a grafia adotada.

b)      Qual a relação que se costuma estabelecer entre esse tipo de palavra e um dos personagens do texto?

 

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